Existirmos: a que será que se destina?

“Tampouco turva-se a lágrima nordestina Apenas a matéria vida era tão fina” (Cajuína – Caetano Velloso)

Por: Jullyane Alves Teixeira, Teresina, PI

Existe amor, muito amor, aquele amor que enche o peito. Existe mãos dadas, chamego e manhãs preguiçosas. Existe olhar pra outra e não querer mais nada a não ser continuar olhando para sempre.

Existe trocar roupas, opiniões, dividir tarefas domésticas, cuidar quando uma está doente. Existe sair juntas, trocar mensagens, fotos, vídeos, links de gatinhos fofos. Existe querer estar perto, viajar, ouvir músicas, fazer planos.

Existe estudar, trabalhar, fazer nada, tédio e pagar contas. Existe visitar os amigos, ir ao teatro, comemorar juntas os aniversários. Existe trocar livros, impressões sobre filmes e torcer para o time do coração. Existe aquele dia ruim, aquela briguinha boba, se chatear porque já pediu mil vezes à outra para não fazer aquilo. Existe ciuminho, ficar de cara amarrada e não querer conversar na hora. Existe ceder, pedir desculpas, admitir que errou. Existe fazer as pazes, fazer amor, gozar gostoso.

Existem ainda, porém, os olhares atravessados dos outros, cutucadas e comentários maldosos. Existem perguntas indiscretas, a fetichização, muitas especulações. Existe também esconder, de alguém, em algum momento, ou até mesmo para sempre, por medo, necessidade ou subsistência.

Existe temer pela vida e evitar trocar carinhos em certos lugares. Existe o estupro corretivo, a violência e o abandono da família e do estado. Existe a incompreensão, a patologização e até mesmo a invisibilidade. Existe o receio do contaminar-se, à si, à sociedade e ao mundo, como se amar uma mulher fosse contagioso.

Existe a incerteza do assumir-se, o suicídio, a depressão. Existe a intolerância religiosa e ter que lutar por direitos civis básicos enquanto é acusada de querer privilégios. Existe não poder doar sangue, ter dificuldade em adotar uma criança e não ter políticas públicas e de saúde.

Existe a vida correndo solta, persiste a luta, insiste o amor.

Nós, mulheres lésbicas e bissexuais, existimos. Resistimos.

Comentários no Facebook

One Comment

  • Daniel Tomazine Teixeira

    Coisa mais linda!!!

Post A Comment